Dia 4

Manhã e descubro que o meu pai, de 81 anos, afinal, tem a arca vazia de peixe e carne – vou ao meu supermercado habitual e dou com ele fechado.

Estranheza – é a sensação imediata. Desorientação, a que me assola em seguida.

Continuo, procurando alternativas. Pequeno talho e pequena peixaria lado a lado – só entra uma pessoa de cada vez, não podemos tocar em nada, os operadores estão com dois pares de luvas e máscaras e não tocam no nosso cartão multibanco.
O cuidado extremo impressiona, no sentido de «marcar», de «afetar», de «abalar»… é «pathos», penso…

Com dois sacos carregados, vou para casa do meu pai, retiro tudo dos sacos originais que deito para o saco do lixo a levar embora já de seguida, lavo energicamente as mãos e desinfeto-as, embalo novamente em sacos de congelação e congelo.
No fim, lavo os balcões usados com detergente que elimina 99% de bactérias (- placebo...-) e torno a esfregar vigorosamente as mãos. Sou  um autómato executando gestos pré-programados…
Fico parada na cozinha a pensar: «Será que deixei algo por desinfetar?! E se ele toca em algo que tem o vírus?»

Parece uma cena surreal, própria de um quadro de Salvador Dali – a tampa da arca transfigura-se perante a insistência do meu olhar, que procura detetar o que jamais conseguirá ver.

Apercebo-me e exclamo - «Parou, São! Assim ficas doida!».

Volto para casa, dispo-me e lavo logo tudo na máquina. 
E isto é só o 4 dia…

É de tarde… o vizinho foi à rua e as suas sapatilhas estão à porta de casa, após serem borrifadas com álcool.
Só temos um frasco e estou a guardá-lo para piores tempos. Descalço-me antes de entrar e ponho as botas na varanda, ao sol.

Sinto-me presa pela ideia de «não dever sair de casa» e todos estes «cuidados preventivos».

Até tenho vergonha de dizer isto, mas sinto-me manietada, tolhida, irritada... Cá em casa queixam-se.

Sentir que tenho a liberdade condicionada transtorna-me, confesso.
É quase instintiva a vontade de resistir, prevaricando, numa atitude de sobrevivência mental/emocional…

«Estás parva ou quê?!» - digo a mim própria, combatendo-me a irresponsabilidade. «Pratica o que ensinas: co-responsabilidade!»

Ao fim do dia vou passear a cadela - Cacau maravilhosa que justifica perante mim própria a necessidade de sair pelo menos uma vez por dia no jardim do bairro! 

A maluqueira da Cacau, tipo «Marley», tornou-se lufada de ar fresco e convida à gargalhada. Respiro bem – normalmente!- nesses momentos…

Mas berrei com a minha filha por tocar nas paredes, corrimões e maçanetas das portas do prédio... ameacei-a, até.

Hoje ri pouco - hoje foi, realmente, o primeiro dia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

DIA 1 - 13 de Março de 2020